Hoje trouxe as mãos ao nariz e senti um cheiro de alho na ponta dos dedos. Não mexi com alho ontem. Inspirei um pouco mais e o cheiro já não estava mais lá. O que tinha nos meus dedos eram memórias. Lembrei-me de um tempo em que cozinhava muito para as pessoas especiais. Cada dia um prato novo, receitas inventadas, ou copiadas. Nesse tempo eu redescobri a arte de cozinhar. Cozinhar para alguém é uma das formas mais sagradas de demonstrar seu amor por alguém. Você se dedica, se abre para inspirações, investe tempo, usa todos os seus sentidos, dedos, boca e coração. Coloca sua alma em um prato, e o entrega para uma pessoa amada nutrir-se. E no dia seguinte fica um cheirinho impregnado nos dedos, dos temperos todos que foram usados no dia anterior. Para mim, esse cheirinho aquece o coração.
Quando você cozinha, você é dono do seu tempo. Você só cozinha porque faz tempo no seu dia para este fim. Quando você se perde nos seus compromissos, quando cada minuto é calculado para otimizar seu tempo no trabalho, ou para ser gasto com um lazer alucinante desenhado para esquecer do trabalho, então você não pode cozinhar. Você vai priorizar almoçar em restaurantes, self-services rápidos, muitas vezes sozinho. Vai jantar pizzas congeladas ou no máximo um sanduíche de queijo. Mas sanduíche de queijo não deixa um cheirinho de alho nos dedos. Não aquece o coração.
Minha cozinha já foi suja e quente. Hoje é fria, e limpa como um hospital. Hoje, vou cozinhar.
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