quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Cheiro de alho

Hoje trouxe as mãos ao nariz e senti um cheiro de alho na ponta dos dedos. Não mexi com alho ontem. Inspirei um pouco mais e o cheiro já não estava mais lá. O que tinha nos meus dedos eram memórias. Lembrei-me de um tempo em que cozinhava muito para as pessoas especiais. Cada dia um prato novo, receitas inventadas, ou copiadas. Nesse tempo eu redescobri a arte de cozinhar. Cozinhar para alguém é uma das formas mais sagradas de demonstrar seu amor por alguém. Você se dedica, se abre para inspirações, investe tempo, usa todos os seus sentidos, dedos, boca e coração. Coloca sua alma em um prato, e o entrega para uma pessoa amada nutrir-se. E no dia seguinte fica um cheirinho impregnado nos dedos, dos temperos todos que foram usados no dia anterior. Para mim, esse cheirinho aquece o coração.

Quando você cozinha, você é dono do seu tempo. Você só cozinha porque faz tempo no seu dia para este fim. Quando você se perde nos seus compromissos, quando cada minuto é calculado para otimizar seu tempo no trabalho, ou para ser gasto com um lazer alucinante desenhado para esquecer do trabalho, então você não pode cozinhar. Você vai priorizar almoçar em restaurantes, self-services rápidos, muitas vezes sozinho. Vai jantar pizzas congeladas ou no máximo um sanduíche de queijo. Mas sanduíche de queijo não deixa um cheirinho de alho nos dedos. Não aquece o coração.

Minha cozinha já foi suja e quente. Hoje é fria, e limpa como um hospital. Hoje, vou cozinhar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Maternidade

Oi meninas. Escrevi o post passado há alguns meses, em momento de necessidade de desabafo mesmo. Para mim foi muito difícil ter que "fingir" felicidade plena por ser mãe, quando na verdade tinha vários conflitos dentro de mim. Não é que eu não estivesse feliz, mas querendo ou não, a gravidez te tira de uma certa zona de conforto. Mas então vamos lá, vou contar para vocês como estão as coisas agora, que minha filhota está com 10 meses.

Bom, para Taty.. não se iluda, os primeiros meses, mais intensamente os 3 primeiros, você não vai conseguir trabalhar na sua tese. Então desencane, relaxe e cuide bem da sua cria, é o melhor que você faz. Já é um momento muito estressante, de muitas novidades, para você ter que ficar se estressando com exames de doutorado. Dos 3 aos 6 meses até que dá pra sentar de vez em quando quando o filhote dorme, e dar uma organizada nos dados, relembrar o que tinha que ser feito. No meu caso, essa distanciada da minha tese foi até boa para eu rever os objetivos e certos resultados. Meu ritmo foi retomando mesmo depois dos 6 meses.

Tem gente que consegue melhor que eu. Talvez você seja mais organizada, mais determinada, e até consiga terminar tudo antes do seu filho ou filha completar 6 meses. Eu não quis forçar muito a barra, eu quero curtir todos os anos da minha filha, porque aquele velho clichê "nossa, aproveita porque passa rápido" é a mais pura verdade. Passa como um sopro mesmo. E ser mãe, é muito bom.

Como é anônimo, posso dizer sem fingimentos... É realmente muito bom ser mãe. É um amor verdadeiramente incondicional, e a natureza é sábia nesse sentido, porque ela te dá um amor bem maior do que as restrições de liberdade que a maternidade traz. Tem gente que diz "ah, nem consigo imaginar minha vida sem minha filha agora.." Bom, eu consigo. Acho que eu estaria muito bem, obrigada. Provavelmente estaria viajando pelo mundo, teria terminado minha tese, enfim... Mas não acho que ter diminuído a marcha na trilha profissional da minha vida tenha sido algo ruim. Minha filha é muito gostosa, muito esperta, e o desafio de inclui-la nos meus planos profissionais, é bem gostoso. Tenho ido a congressos e levado ela junto comigo. Tenho trazido menos trabalho pra casa, mas meu trabalho tem rendido mais na universidade. E essa coisa de se ter menos tempo para se dedicar para a tese, me tornou uma mulher mais criativa. Eu sinto que fiquei mais inteligente (hehe) verdade! Parece que minha cabeça cria alternativas para resolver determinados problemas mais rapidamente agora.

Enfim, estou muito empolgada com a maternidade. Acho que compensa toda a desaceleração em qualquer aspecto da vida. Eu podia passar horas falando sobre assuntos de mãe, sobre parto, amamentação, alimentação saudável, pediatras, sono do bebê (esse é o mais interessante), envolvimento do pai... mas acho que existem várias outras fontes pela net sobre esses assuntos. No momento, acho que vale falar sobre essa divisão do tempo da mãe.

Acho que para criar um ritmo de trabalho, tem que ter uma organização da rotina diária muito bem estabelecida. Primeiro, porque a rotina ajuda o bebê a ficar mais tranquilo. E um bebê mais tranquilo, significa uma família mais tranquila. =) A maternidade é tão gostosa, e exige tanto de você,  que talvez você pense até em deixar seu doutorado de lado para cuidar 100% da família, e até passe a entender melhor as mulheres antes do feminismo. Eu mesma ponderei sobre esse assunto. Cheguei à conclusão de que uma mãe realizada, é uma mãe melhor. E os filhos são para o mundo não é mesmo? Daqui há uns poucos anos, estão todos na escola, resolvendo suas vidas, e a mãe deixa de ser aquela figura tão essencial. Mas aí voltar para a carreira não é mais tão simples assim. Então não aconselho a abandonar suas coisas, seus planos, seus sonhos. Recomendo a diminuir a marcha, para não enlouquecer. Continue fazendo as coisas num ritmo em que tudo funcione em harmonia. Se libere das paranoias de academia, e se dê um pouco mais de prazo. Se você depende de bolsa, procure sobre possíveis licenças (a CAPES e o CNPq prorrogam a bolsa por 4 meses). Se for preciso, tranque por um tempo... Eu acabei que fiquei mais enrolada porque trabalho também. Então trabalho, doutorado e maternidade... está complexo! Mas dá para fazer. Se for só maternidade + doutorado, vai ser mais tranquilo do que se imagina.

O que eu tenho observado, é que o caminho a ser seguido é o caminho do meio... Não abandone a função de mãe, ou será uma mãe arrependida. Não abandone as pesquisas, o doutorado, ou será uma mulher frustrada. Dá sim para conciliar as coisas. Este mês vou colocar minha filha na escolinha por meio período. No outro turno ela fica com o pai, com a avó, com a outra avó...  Se tiver recursos para pagar, não vejo problemas em deixar período integral a partir dos 6 a 8 meses. Se for necessário para que as coisas funcionem, vá em frente. O importante é não sentir culpa por querer dar continuidade aos planos anteriores à maternidade. Não sei como é no exterior, mas vejo que por aqui, os berçários estão cada vez mais profissionais, e mais confiáveis. Na verdade esse é um assunto que toma muito tempo também, e eu só queria tocar no ponto da importância da divisão do seu tempo. Para haver esse equilíbrio, tem que ter ajuda de alguém. Da família, de uma babá, de uma escolinha. Não rola de fazer tudo sozinha... Eu sempre fui meio metida a ser independente demais, mas para fazer tudo o que se quer, tem que ter ajuda. Vá estabelecendo esse rede de auxílio antes dos 6 meses, para quando for voltar à ativa, já ter um esquema mais estruturado.

Quero postar alguma coisa daqui a seis meses, dizendo que o meu doutorado acabou! Com um certo atraso, mas tudo bem... Vamos torcer para que realmente tenha acabado. Por enquanto, estou conciliando as coisas, e digo que está caminhando. Não se apavorem! Achava que a maternidade seria mais difícil do que realmente é.

Vou tentar escrever mais... escrever aqui me ajuda a organizar meus pensamentos. Escrevam de volta e assim vamos organizando vários pensamentos em conjunto =)


sábado, 22 de outubro de 2011

Estou grávida... e o meu doutorado?

Você está no meio de uma vida louca, trabalhando, cursando doutorado em outra cidade, namorando um cara de uma terceira cidade, a vida é uma ponte aérea... Baladas inesquecíveis, barzinho todo fim de tarde, almoço com as amigas, amigos novos, músicas novas, viagens para congressos, mil planos para o mês que vem, outros mil planos para o ano que vem e um milhão de perspectivas para os próximos 5 anos. Te soa familiar? Pra mim também. Até que descobri a gravidez.

No início é até legal. Todo mundo te parabeniza, fica uma sensação de êxtase, um friozinho na barriga de mudança por vir... até que cai a ficha: e agora? E o meu doutorado? Cara, a vida já tava uma loucura quando eu tinha que cuidar só de mim, como será agora, com um ser que depende inteiramente da minha disponibilidade, da minha saúde?? E a sensação mais real de todas: e o pai do meu filho?? Será que eu queria mesmo me casar com esse cara? Será que ele vai ser um bom pai? Será que ele vai me trair durante a gravidez? Será que ele vai mudar? Bom, mudar certamente vai, já que tudo vai mudar... mas será que muda pra melhor ou pra pior???

A gente já estava junto há uns 4 anos. A relação estava cada vez mais estável, menos brigas, mais confiança (se é que é possível haver confiança depois de tantas burradas cometidas, de ambos os lados). Mas ter um filho... a gente só falava nisso de brincadeirinha, até soava meio romântico. Mas eu não levava muito a sério. Foi a minha primeira angústia: agora, tenho uma ligação com este cara pelo resto da minha vida. E com a família dele também.

Bom, tudo bem... sem desesperos. No mundo moderno nenhuma mulher fica presa a um homem por causa de um filho. Eu já tenho meu emprego, ganho bem o suficiente para não depender de pensão, então vamos esquecer esta angústia e curtir o momento. É lógico que ele vai curtir também, quem não gostaria de ter um filhotinho, sem nem mesmo precisar parir? A gente se adora, e se admira. Não há razões para antecipar uma angústia com relação a uma possível separação. A onda agora é curtir o momento, sexo na gravidez é super diferente, por causa do lance dos hormônios... enfim, de boa. Essa até que foi fácil.

Aí vem a segunda angústia. Os meus planos.... No meu caso, eu havia acabado de receber uma bolsa para um estágio de 5 meses no exterior para conclusão do meu
doutorado. E agora? Vou ter que abrir mão assim, de uma hora pra outra??? Tá, tem gente que perde a única olimpíada que poderia ter participado na vida por conta de uma gravidez... eu ainda vou ter muitas chances de estagiar no exterior... tudo bem, tudo bem.... Tudo bem nada! Eu queria muito curtir esse estágio ao máximo, publicar uns 5 artigos, conhecer gente nova, sair, beber, estudar com tempo, sempre disse: vou fazer esse estágio antes de ter filhos!!! Por que fui dar aquele mole... por que não me cuidei como deveria?? Essa sensação sim, é difícil de curar. E saber que seu filho não tem nada a ver com isso, traz um pouco de confusão também, porque te obriga a se sentir feliz com a gravidez, mesmo não estando plenamente satisfeita.

Eu sempre quis ter filhos. Minha família é grande, tenho um monte de primos. Mas eu me sinto uma adolescente, aos meus plenos 27 anos. Me sinto uma legítima vítima de gravidez na adolescência. Para quem vê de fora sempre soa um pouco ridículo, mas é a mais pura verdade. Eu, apesar de bem empregada, em um relacionamento estável, morando sozinha, achava que era muito cedo para ter filhos. A gente sempre quer um filho pra daqui uns 3 anos. Mas o agora sempre é cedo demais.

Procurei muito material para ler, para me identificar. Mas metade das coisas que li, eram sobre mulheres que queriam muito engravidar, mas não conseguiam, ou que engravidaram querendo muuito. A outra metade eram sobre as loucuras da maternidade, como ser mãe é difícil, de como você não precisa de um filho para ser feliz. Então decidi parar de ler essas coisas, e escrever um pouco sobre a minha situação, que se parece com a de tantas outras mulheres: sempre quis ter um filho, mas não achava que seria agora. Sempre quis ter um filho e sempre soube das dificuldades que poderiam existir, e isso nunca me desanimou. Eu só não queria que fosse exatamente agora.

Se você se identifica com essa situação e estas ansiedades, acompanhe mês a mês os estágios desta gravidez, e da maternidade. Espero poder estar escrevendo daqui a um ano, que todas estas angústias se transformaram em comédia, e que minha vida continua super agitada e cheia de perspectivas, apesar das mudanças. E que minha filhotinha é linda, saudável, esperta e que certamente me encherá de alegria!